Um radiante dia de sol

A sequência inicial do filme “Matador em conflito” é embalada por “I can see clearly now”, canção solar imortalizada na voz de Johnny Nash. Este é um artista norte-americano que faleceu em 6 de outubro deste ano, mesmo dia em que o mundo do rock perdeu o guitarrista Eddie Van Halen

É só mais um dia de trabalho. De cima de um prédio, Martin Blank acerta o tiro em um ciclista, que por sua vez se preparava para alvejar um senhor saindo de um prédio. Mas um terceiro atirador aparece de maneira surpreendente e descarrega duas armas no alvo. Enquanto isso, Blank conversa com sua secretária ao telefone.

Esta é a sequência inicial de “Matador em conflito” (1997), filme de George Armitage cujo título original é “Grosse Pointe Blank”.

A violenta cena com tiros e duas mortes é embalada por uma trilha sonora no mínimo curiosa: a canção “I can see clearly now”, imortalizada por Johnny Nash (1950-2020). Resumidamente, trata-se de uma letra positiva, sobre um brilhante dia de sol, após a passagem da chuva e das dores. Em primeira pessoa, o sujeito diz que vê claramente o dia e ainda tem um arco-íris.

Ou seja, são metáforas sobre um momento mais alegre e um horizonte promissor. Bem diferente do contexto do filme. Mas, claro, a narrativa de humor negro de Armitage leva um clima de paródia, por isso a junção de cenas violentas com uma música “pra frente”. No caso, é uma ironia com o protagonista do longa-metragem, um matador profissional que está num momento de conflito íntimo.

A brincadeira é essa. Blank (John Cusack) tem de fazer um “serviço” em um subúrbio de Detroit e, por coincidência, a reunião de 10 anos da sua turma de colegial acontece no mesmo local. Na sua pista estão dois agentes federais, um outro matador profissional (Dan Aykroyd), que quer tem a missão de matá-lo, e um outro assassino, que sonha criar um sindicato de assassinos profissionais.

Na verdade, está na hora de Blank descobrir um novo horizonte, acertando as contas com o passado e começar a enxergar o mundo de outro jeito. Ele pode “ver claramente agora”, parafraseando o título “I can see clearly now”. Ação, dinamismo e ótimos diálogos.

E não se engane: “Matador em conflito” é uma comédia romântica. Juro!

NASH
Parece que não, mas a trilha de abertura define o longa. E é uma canção de Johnny Nash, cantor e compositor norte-americano falecido recentemente (em 6 de outubro) aos 80 anos de idade, nos Estados Unidos.

Lançado em 1972, o single “I can see clearly now” (sim, o mesmo de “Matador em conflito”) vendeu mais de um milhão de cópias e ficou por quatro semanas no topo da lista da “Billboard”, conforme dados do G1.

Essa canção chegou a ser regravada por outros grandes artistas, como Lee Towers, em 1982, e Jimmy Cliff, em 1993. Quem vê e escuta o filme com John Cusack pode achar, à primeira vista, que é Cliff na performance, pelo timbre semelhante. Mas, nos créditos do longa-metragem, confirma-se que é mesmo Nash.

Em tempo: a versão do jamaicano (famoso por “Reggae Night”, entre outras) está em “Jamaica abaixo de zero” (1993, dir. Jon Turteltaub), divertida comédia com John Candy e campeã da Sessão da Tarde.

Aliás, a trilha sonora da fita de Armitage é recheada de clássicos da música pop ao som de bandas e artistas principalmente dos anos de 1980: Guns n’ Roses, The Clash, The Jam, Echo & The Bunnymen, The Pixies, The Cure, A-Ha, Faith no More, entre outros. Pudera, é a turma de colégio de 1986 do tal assassino profissional.

Só não tem Van Halen. Inexplicavelmente.

EDDIE
Quis o destino que o guitarrista Eddie Van Halen falecesse no mesmo dia que Johnny Nash: 6 de outubro de 2020.

Junto com seu irmão Alex, Eddie fundou em 1972 a banda que seria batizada mais tarde como Van Halen. Este projeto musical entrou para a história do rock, tornando-se um dos mais influentes no hard rock e heavy metal.

O estilo enérgico e espalhafatoso da banda marcou a cultura dos anos de 1980. Mais do que isso: Eddie se tornou uma lenda com seu estilo único. Ele não inventou, mas deu uma cara única ao tapping, técnica em que as duas mãos são usadas no braço da guitarra.

Apesar da alta voltagem, as canções do Van Halen não estão em “Matador em conflito”. Na verdade, a festiva “Jump”, por exemplo, está em outra fita: “Jogador Nº 1”, de Steven Spielberg. Mas aí, amigo, é outra história.

************Texto: Cris Nascimento, especial para o CORREIO

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