Sopa de letrinhas: conheça um pouco da história do livreiro José Olympio

Há mais de 30 anos, o mercado nacional das letras perdeu José Olympio, mais conhecido pela sigla J.O., o principal editor brasileiro do século 20. Por sua editora, passaram nomes como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade e Rachel de Queiroz

Nome de editora costuma ser curioso e criativo: Estronho, Companhia das Letras, Estrada de Papel etc. Principalmente quando tem um sobrenome: Martins Fontes, Francisco Alves, Rocco, entre outros.

Muitos leitores costumam ficar curiosos em saber quem é o cara por trás daquela denominação. Será que o tal “Francisco Alves” existiu mesmo? Ou é apenas uma invenção para conferir mais prestígio à casa editorial?

Geralmente, nome/sobrenome de uma editora vem de seu fundador, que é o dono e principal editor. Um dos mais famosos na história do mercado livreiro brasileiro é José Olympio Pereira Filho.

Ele começou a imprimir sua marca no universo das letras em 1931 com a Livraria José Olympio Editora em São Paulo. Mas foi no Rio de Janeiro, após mudança de sede e livros, que seu nome fez a diferença. Era na Rua do Ouvidor, 110, que a loja funcionou durante duas décadas, movimentando a cena cultural do país.

Em 2020, completaram-se 30 anos da morte de J.O. (como era mais conhecido) – ele faleceu em 3 de maio de 1990. Por isso, vale a pena mergulhar nos arquivos sobre o editor brasileiro mais importante do século 20. Parece exagero dizer isso. Mas não é.

José Olympio e sua Casa (livraria e editora) abriram as portas (literalmente falando) e as páginas para a consolidação de escritores como Graciliano Ramos (autor de “Vidas Secas”, por exemplo), José Lins do Rego (“Menino de Engenho”), Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”), Rachel de Queirós (“O Quinze”), Carlos Drummond de Andrade. A lista cobre mais de 900 autores e 2,2 mil títulos.

Segundo matéria publicada em 10 de maio de 1990 pelo jornal O Estado de S.Paulo, a José Olympio chegou a ter 90% dos autores nacionais.

A Casa teve papel fundamental para o desenvolvimento do mercado editorial, mas a livraria também era local de agitação cultural. No livro “Rua do Ouvidor 110: Uma história da Livraria José Olympio” (2006), a autora Lucila Soares conta que o estabelecimento reunia diariamente escritores (Graciliano, Zé Lins, Rachel etc.) e artistas (caso de Santa Rosa, famoso capista) em rodas de discussão.

Naquele tempo, os clientes da livraria de J.O. poderiam topar com os principais autores brasileiros. Era só ter coragem de se aproximar. Um dos escritores mais assíduos foi o autor de “Menino de Engenho”, Zé Lins, que passava todos os dias pelo local.

A obra do escritor alagoano Graciliano Ramos foi publicada pela Editora José Olympio (Foto: Ilustrativa)

INÍCIO
O livro de Lucila Soares, que é neta do famoso editor, conta que José Olympio saiu ainda muito jovem de Batatais (SP) para se aventurar na capital paulista. Trabalhou como balconista numa livraria até que, a partir da compra do acervo da biblioteca de Maurício Pujol, abriu sua própria loja de livros.

Mas foi no Rio de Janeiro, a partir de 1934, que a livraria/editora ganhou projeção. Soares conta que José Lins do Rego gostou tanto da filosofia de trabalho de J.O. que viajou da Paraíba ao Rio só para conhecer o editor, nos anos iniciais.

“Jorge Amado, Sérgio Buarque de Hollanda, Rubem Braga, Guilherme Figueiredo, Gilberto Freire e quase todos os clássicos brasileiros ganharam abrangência nacional na José Olympio”, destaca o Estadão de 27 de janeiro de 2001.

Segundo O Globo, em matéria de 28 de novembro de 2011, J.O. tinha faro e ousadia ao apostar em promessas. “Eram jovens autores nos anos de 1930, quando encontraram em José Olympio não só um estímulo de um grande amante dos livros, mas as condições financeiras e de distribuição para chegaram aos leitores”. O editor lançou a chamada geração de 30 e toda a literatura moderna.

Livro conta história da livraria José Olympio (Foto: Reprodução)

MUDANÇA
Nos anos de 1950, a livraria teve de fechar suas portas. Foi “expulsa” do prédio onde funcionava, para que um novo edifício fosse construído. Infelizmente, nunca mais voltou à atividade do jeito que era.

Já a editora, em novo endereço, continuou em pleno funcionamento sob o comando de J.O. até meados dos anos de 1970, quando passou a ser administrada pelo governo, através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). Isso ocorreu porque a editora não conseguia saldar suas dívidas com os bancos e por isso sofreu intervenção.

Entre idas e vindas, desde 2001 a José Olympio é um selo do Grupo Record. Mas, sem a figura de J.O., não é mais a mesma casa que fez história no mercado livreiro.

**************Texto/pesquisa: Cris Nascimento, especial para CORREIO

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