O dia em que Beth Carvalho quis o velho Fuscão: 10 anos de ‘Por um monte de cerveja’

Em 2021, o CD “Por um monte de cerveja” completa dez anos de história. Uma de suas faixas se chama “Beth Carvalho quer comprar o meu Fuscão”, em que o saudoso bluesman Celso Blues Boy canta que a lendária sambista Beth Carvalho estava interessada em adquirir seu estimado besourinho

Quem diria. A famosa sambista Beth Carvalho (1946-2019) já quis comprar o velho Fuscão do guitarrista Celso Blues Boy (1956-2012). Mas Dona Beth ficou a ver navio, pois ele não abriu mão do famoso besourinho.

Pena que essa negociação comercial inusitada só existe na letra da faixa “Beth Carvalho quer comprar o meu Fuscão”. Se ocorreu mesmo, ninguém sabe. E pouco importa, pois o mais importante é o “clima espirituoso” da canção que integra “Por um monte de cerveja” (2011), nono disco de estúdio do bluesman brasileiro.

Mais do que isso, é o último trabalho lançado em vida por Celso, que viria a morrer no ano seguinte (infelizmente…), em decorrência de um câncer. Em 2021, esse CD completa dez anos de história.

Com produção de Roberto Lly (ex-Herva Doce e falecido em 2016), “Por um monte de cerveja” tem 13 faixas, permeado por um espírito descompromissado de blues rock e certo humor, caso da faixa-título, uma ode ao lado etílico da música; a citada brincadeira com Beth Carvalho; a metalinguística “Vim tocar na sua cidade”; e a provocativa “Odeio rock’n’roll”.

Em 2012, o guitarrista Celso Blues Boy participou do programa televisivo “Estúdio Móvel” (disponível AQUI), exibido naquela época pela TV Brasil. Durante a conversa com a apresentadora Liliane Reis, o músico contou que a banda Detonautas Roque Clube participou da gravação do disco.

“Foi o Tico [vocalista do Detonautas] que me perguntou se eu tinha música inédita. Ele ofereceu o pessoal dos Detonautas para me acompanhar. No caso do disco, foi uma faixa só em que tocaram todos os Detonautas. O resto do disco é eu, o Roberto [Lly, produtor e baixista], o guitarrista deles e o baterista deles. E o Villarim nos teclados”, disse Celso.

Assim, nasceu o álbum, batizado com o nome da música da 1ª faixa. “A canção fala basicamente que eu dispenso tomar outras coisas, porque eu gosto mesmo de um monte de cerveja”, explicou o guitarrista.

Ele ainda detalhou que teve bastante tempo para compor todo o material. “Antes eu não tinha”, acrescentando que morava em Joinville (SC), numa chácara.

Em 2012, o guitarrista Celso Blues Boy participou do programa televisivo “Estúdio Móvel” (Foto: Reprodução)

RECEPÇÃO
Em 2011, O Estado de S.Paulo foi um dos poucos jornais a dar destaque para “Por um monte de cerveja”. Matéria publicada no dia 24 de setembro daquele ano, trazia um material de meia página no Caderno 2 desse diário paulista.

Assinada por Helton Ribeiro, a reportagem contextualiza a carreira do bluesman, explicando que este fez sucesso nos anos de 1980, durante a geração do RockBR, mas estava no ostracismo em 2011. Inclusive, o texto informa que Celso estava recolhido em uma chácara em Joinville, há nove anos sem lançar discos.

No entanto, o hiato foi rompido com “Por um monte de cerveja”, saudado pelo Estadão como um “velho blues visceral, sem firulas”, bem ao estilo do guitarrista. Não é porque ele contou com a colaboração dos Detonautas que ficaria mais “moderninho”.

Aliás, a matéria se apoia numa entrevista com Celso Blues Boy para contar que o carioca Tico Santa Cruz convenceu o músico a compor novas canções. “Conheci o Tico quando ele pediu para dar canja num show meu no Rio, em 2009. Conversando depois, ele sugerir colocar os Detonautas como banda de apoio para que eu gravasse um disco novo”, contou para o repórter

O texto ainda detalha as influências presentes no material: Lou Reed (“Por Um Monte de cerveja”), Rolling Stones (“Odeio rock’n’roll”), Neil Young (“Ele sabia que as luzes se apagam”) e Lynyrd Skynyrd (“O que essa humanidade fez”).

Estadão foi um dos poucos jornais a darem destaque para Celso Blues Boy em 2011 (Foto: Reprodução)

Ribeiro também conta que o entrevistado, cujo nome verdadeiro é Celso Ricardo Furtado de Carvalho, começou a carreira nos anos de 1970, “tocando nas bandas de Raul Seixas e Sá & Guarabyra. Ao lançar carreira solo, adotou o nome artístico em homenagem ao ídolo Blues Boy King (mais conhecido como B.B. King)”.

A propósito, B.B. King se tornou parça, participando do CD “Indiana Blues”, de Celso, lançado em 1996. Mais do que isso, o mestre está no clipe “Mississipi”, contracenando com o brasileiro.

*********Texto/pesquisa: Cris Nascimento, especial para CORREIO

Capa do CD lançado em 2011 (Foto: Reprodução)
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