Disco ‘Entre seus rins’ chega aos 20 anos

Série especial do CORREIO, Arquivos Culturais, mergulha no ano de 2001 para contar um pouco da história do décimo disco de estúdio da famosa banda paulistana Ira!, que é um dos pilares do RockBR da década oitentista do século 20

Não é um dos trabalhos de estúdio mais idolatrados do Ira! Tampouco é conhecido do grande público roqueiro. Mas, em 2021, completa 20 anos de seu lançamento. Trata-se de “Entre seus rins” (2001, Deck Disc/Abril Music).

A série Arquivos Culturais mergulha no ano de 2001 para contar um pouco da história do décimo disco de estúdio da famosa banda paulistana, que é um dos pilares do RockBR dos anos de 1980.

No entanto, na virada do milênio o então quarteto formado por Nasi (voz), Edgard Scandurra (guitarra), Gaspa (baixo) e André Jung (bateria) vinha de dois trabalhos de revisionismo: as versões românticas em “Isso é Amor” (1999) e a coletânea “MTV Ao vivo” (2000). Em suma, a banda vivia naquele momento um hiato de três anos sem material inédito.

Isso mudou com “Entre seus rins” (título de duplo sentido), uma produção de Marcelo Sussekind. Composto de 12 faixas, o CD apresentava composições de Scandurra (caso da faixa-título e “O Bom E Velho Rock’n’roll”, entre boa parte do material), de outros integrantes da banda (“O Tempo”, de Nasi e Ricardo Gaspa), parcerias (“Pecado”, de Edgard Scandurra e Arnaldo Antunes) e cover (“Homem de Neanderthal”, de Frank Jorge, ex-integrante da banda gaúcha Graforréia Xilarmônica).

A canção “Superficial (Como um Espinho)”, de Scandurra, já havia sido gravada no disco ao vivo de 2000. Mas, no trabalho de estúdio, ganhou outra roupagem.

Em geral, “Entre seus rins” foi saudado de maneira positiva pela imprensa em 2001. No jornal O Globo (em 11 de dezembro de 2001), a seção Discolândia apontou que o Ira! tinha muito a dizer no então novo trabalho: “…e a banda limita-se ao que faz melhor: boas canções roqueiras, com o brilho natural das guitarras de Scandurra e melodias que remetem a tempos idos”. O material recebeu nota 4 (“bom”).

Reprodução de página do jornal O Globo com destaque para o Ira! (Foto: Divulgação)

Na mesma linha, O Estado de S.Paulo de 28 de novembro de 2001 destacava o vigor apresentado pelo CD do quarteto paulistano. “O novo disco do Ira! é simplesmente um dos melhores de rock da temporada”, dizia o texto assinado pelo repórter e crítico musical Jotabê Medeiros, hoje um prestigiado biógrafo (“Belchior – apenas um rapaz latino-americano”, entre outros).

Entremeadas de entrevistas com a banda, a reportagem contextualiza os trabalhos anteriores do Ira! e dá seus pitacos críticos sobre “Entre seus rins”, apontando como qualidade a sofisticada mistura de rock com “certo conceito pré-eletrônico”.

COMPOR
Em matéria publicada em 29 de novembro de 2001 no jornal Folha de S.Paulo, Scandurra apontava para a volta ao processo de composição. “Às vezes dá um branco, você fica anos sem conseguir compor. O branco pinta, você fica triste, aí de repente vem uma avalanche. Me senti tão feliz quando comecei a escrever, a ver que podia criar uma fabriquinha de letras e músicas novas”.

Nesse sentido, Nasi admitiu que estava num período de entressafra criativa. “Eu, particularmente, estou numa entressafra. Mas isso não me incomoda. O que importa é termos boas composições para criar. Não faz diferença de qual de nós elas sejam”.

Outro aspecto apontado pela reportagem é a ponte com as experiências eletrônicas de 1998. “90% do nosso público não viu com bons olhos a mistura de rock e música eletrônica”, admitia o guitarrista.

E, por fim, a Folha destacava a homogeneidade temática de “Entre Seus Rins”. “As letras falam sobre bem e mal, sobre pecado, são mais adultas”, analisava Nasi nessa entrevista.

Reportagem assinada por Jotabê Medeiros deu destaque para novo disco da banda em 2001 no Estadão (Foto: Reprodução)

BONS TEMPOS
Em artigo publicado no site Omelete (www.omelete.com.br/musica/ira-entre-seus-rins), em 31 de janeiro de 2002, Alexandre Nagado saudou a volta do Ira! aos bons tempos em “Entre seus rins”, com um “trabalho enxuto, vigoroso e de grande sensibilidade”.

O crítico musical destacou ainda as faixas “O bom e velho rock’n’roll”, “Superficial (como um espinho)”, “Um homem só” e “Mistério”. “Esse é mais um grande trabalho do grupo paulista que não deixa morrer o bom e velho rock’n’roll, coisa que faz questão de frisar logo na canção que abre o novo álbum”, finalizou.

TRAJETÓRIA
Na discografia do Ira!, “Entre seus rins” soa como um disco mais convencional entre seus trabalhos autorais. A despeito do flerte com o eletrônico em algumas faixas.

Afinal, antes desse material, o produto inédito mais recente havia sido “Você não sabe quem eu sou” (1998), um CD experimental em que a banda paulistana mistura rock e música eletrônica. O resultado foi uma porrada roqueira que muitos fãs não entenderam naquela época.

Capa do disco de 2001 (Foto: Divulgação)

E, dez anos antes de “Você não sabe quem eu sou”, o quarteto entrou para a história da música pop com “Psicoacústica” (1988), um LP ousado e provocador.

Claro que esse conjunto surgido nos anos de 1980 também acertou quando legou obras mais comerciais – “Mudança de Comportamento” (1985) e “Vivendo e Não Aprendendo” (1986) -, recheadas de hits radiofônicos (“Envelheço na cidade”, “Flores em você” etc.). Porém, em seus melhores momentos, o Ira! soube se reinventar e sair da zona do conforto.

*********Reportagem: Cris Nascimento, especial para CORREIO

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