Caldeirão cultural

Idealizada por dois irmãos e de portas abertas desde 2016, a loja de livros e discos Gato Preto vem ocupando espaço como ‘point’ cultural em Guarapuava nos últimos anos, sendo palco de feiras, lançamentos de livros e clubes de leitura

Ao longo dos 201 anos da famosa “terra do lobo bravo”, muitos espaços foram tidos como paradas culturais. ‘Points’, por assim dizer, onde os guarapuavanos se reuniam para tratar das mais variadas manifestações artísticas. 

Fato é que hoje, em pleno 2020, a loja de discos e livros Gato Preto parece ocupar essa posição, sendo palco de feiras, lançamentos de livros, discotecagem, pocket shows e círculos de conversas sobre a literatura brasileira e mundial. 

De portas abertas há quatro anos, o local foi idealizado pelos irmãos Mackey Pacheco, guitarrista da banda de surf-rock Kingargoolas, e Enilda Pacheco, professora e curadora literária, para desempenhar esse papel aglutinador nas artes.

“A gente sempre teve uma necessidade de compartilhar. Eu, como professora, de compartilhar o conhecimento sobre literatura, escritos e livros. E do meu irmão, o conhecimento e a vivência sobre a música”, explica Enilda, que se dedica à curadoria das obras literárias que compõem o acervo da Gato Preto.

Inclusive, a dupla colocou a cara a tapa num momento em que o Brasil passava por uma crise econômica tremenda, em pleno 2016. Mas, a organização e a necessidade de viabilizar um desejo antigo acabaram sustentando o projeto. 

“A gente abriu justamente para oferecer para as pessoas mais um espaço cultural, uma vez que a gente entende que a cidade é bastante carente de espaços culturais que funcionem sempre, sempre disponíveis ao público que tem interesse nesse universo”, acrescenta. 

No que diz respeito aos livros, Enilda explica que o conceito é voltado às artes e humanidades, deixando as obras técnicas em segundo plano. 

O acervo é amplo: livros de literatura brasileira e estrangeira, contemporânea e clássica, portuguesa, russa, italiana, francesa, germânica, japonesa, hispano e anglo-americanas, por exemplo, e obras ligadas à história, filosofia, sociologia, psicologia, psicanálise e política estão disponíveis. “Além desses universos, a gente tem artes plásticas, músicas, quadrinhos, literatura infantil, juvenil e biografias”. 

CULTURA VIVA

A criação da Gato Preto é enraizada na ideia de não se limitar à função comercial. Assim, ela respira cultura através de ações artísticas que encontram espaço na casa localizada na rua Azevedo Portugal, no Centro de Guarapuava. 

E, talvez uma das mais significativas seja o clube de leitura Leia Mulheres, trazido por Enilda para o município. 

A iniciativa foi da jornalista e escritora britânica Joanna Walsh em 2014, que através do projeto “Read Women” – leia mulheres, em tradução livre -, propõe que mais autoras femininas sejam lidas e conhecidas pelo grande público.

“A invisibilidade da mulher na literatura e nas artes é bastante grande. Esse projeto teve o intuito de provocar as pessoas, os leitores, a buscar mais o conhecimento sobre esse universo da autoria feminina”, explica. 

Em 2015, o projeto começou a ser desenvolvido no Brasil, mais especificamente na cidade de São Paulo, em formato de clube de leitura. Enilda conta que conheceu a proposta neste período, em Curitiba, e que, após participar por um ano, decidiu trazê-la para Guarapuava. 

“O clube de leitura Leia Mulheres tem justamente a intenção de dar visibilidade para as mulheres escritoras, de fazer elas serem conhecidas e de divulgar o trabalho delas. Uma das prerrogativas é promover encontros que devem acontecer especificamente em espaços culturais, como a Gato Preto, que cumpre esse requisito de ser um espaço cultural e não apenas comercial”, acrescenta a professora.

Encontro realizado antes da pandemia da Covid-19 (Foto: Ilustrativa/Arquivo/Correio)

DISCOS

Saindo da literatura e entrando no mundo da música, Mackey explica que, nos quatro anos em que a Gato Preto está em atividade, o público consumidor de vinil vem aumentando.

“O mais legal é que é um público variado, de faixas etárias distintas, que passaram a curtir música nesse formato mesmo com todo o acesso virtual à música propiciado atualmente”, avalia o guitarrista, que destaca que houve um resgate dessa forma de experimentar a música. 

“Creio que nunca teremos um consumo de discos como nas décadas de 60, 70 e 80, pois na ocasião era a principal forma de se ouvir música. Porém, teremos muitas pessoas que não se contentarão em ouvir música em streamings, sem toda a sensação e qualidade que um vinil em um bom aparelho pode proporcionar”, acrescenta. 

O rico acervo de vinis na loja já contou com discos raros – inclusive os chamados “first press”, que são os da primeira prensagem original – de bandas como The Beatles, Pink Floyd, Rolling Stones e Bob Marley. 

“Também tivemos clássicos e raros da música brasileira como o disco ‘Afro sambas’, de Baden Powell e Vinícius em prensagem original de 1966, ‘Chega de Saudade’, de João Gilberto em sua prensagem original de 1959, e, como esses, muitos outros que passaram ou ainda estão no nosso acervo”, conta.

ACERVO

De acordo com Mackey, desde que a Gato Preto foi aberta, o objetivo vem sendo manter um acervo de 2,5 mil a 3 mil LPs disponíveis ao público, importados e nacionais, usados e novos. 

Os estilos vão do blues, jazz, soul, funk, punk, hardcore, rock alternativo, progressivo e psicodélico ao rap, trap e música popular brasileira. 

Entre tantas possibilidades, segundo o guitarrista, é preciso manter uma série de cuidados e critérios para se certificar do estado do vinil e melhorá-lo para a venda. 

“Sigo um padrão internacional de classificação de discos e, para isso, o processo inicia com a higiene no disco de vinil com uma solução específica de água com detergente neutro e uma espuma ultra-macia para, em seguida, uma secagem in natura”, detalha Pacheco, acrescentando que as capas também são limpas e, se for necessário, é feito um processo de reparo às artes estampadas.

SOCIAL

Além do universo cultural que permeia a Gato Preto, Enilda destaca que sempre houve uma preocupação com o social. No sentido de não tratar o livro apenas como um objeto de consumo, com intuitos comerciais. 

Dessa forma, ela conta que em 2019 foi realizada uma campanha de arrecadação de livros, revistas e materiais de leitura em geral para montar uma pequena biblioteca em uma instituição pública de Guarapuava. 

“A livraria trabalha só com livros novos, e esse processo de arrecadação visa fundamentalmente livros usados, livros que as pessoas não querem mais… e que podem servir muito apropriadamente para quem não tem material de leitura nenhum”, frisa.

FUTURO

Com a impossibilidade de realizar encontros presenciais devido à pandemia da Covid-19, a tendência é que a Gato Preto retome suas atividades culturais – como o Leia Mulheres, por exemplo – no ano que vem e tenha, na livraria, a presença de escritores e escritoras paranaenses para conversas literárias e lançamentos de livros.

“No Paraná, há excelentes escritores, inclusive que têm projeção nacional, e que são praticamente desconhecidos aqui na cidade”, ressaltando a possibilidade de o espaço ser utilizado por autores locais.

No âmbito social, Enilda cita uma nova ação através de seus acervos pessoais, com livros usados, e materiais novos da livraria, que não servem para a comercialização. 

“A gente está fazendo uma seleção desse material e pretende fazer uma outra ação, tanto de doação, quanto de mecanismo ‘vai e volta’, que a pessoa pode pegar o livro emprestado, ler e devolver, ou pegar o livro para si e dar outro no lugar”, pontuando que o objetivo é fazer o universo da leitura circular. “Mas isso vai depender de como vai estar a situação da pandemia”, finaliza. 

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