Babenco em dose dupla: livro e filme

Produzidas pela atriz, diretora e escritora Bárbara Paz, as obras “Mr. Babenco – Solilóquio a dois sem um” (livro) e “Babenco – alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou” (filme) revelam as ideias do cineasta Hector Babenco e os bastidores de clássicos como “Pixote – A lei do mais fraco”

É curiosa a trajetória da atriz Bárbara Paz na grande mídia. De participante do reality show “Casa dos Artistas” (no SBT, anos 2000) a diretora de respeito, passando por atuações em novelas da TV Globo e o relacionamento amoroso com Hector Babenco (1946-2016).

Aliás, esse cineasta argentino naturalizado brasileiro é o tema de duas obras que se interseccionam: o livro “Mr. Babenco – Solilóquio a dois sem um” (2019, ed. Nós) e o filme “Babenco – alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou” (2019). Ambos são de Paz.

Na verdade, o relato em papel é uma espécie de “versão estendida” do documentário (ou “making off”), pois traz informações que ficaram de fora do filme, com direito a coletânea de poemas escritos por Babenco. As duas obras têm como plano principal os últimos dias de vida do diretor, famoso por clássicos como “Pixote – A lei do mais fraco” (1980) e sucessos do tipo “Carandiru” (2003); no total, ele produziu 11 longas-metragens em uma carreira marcante no cinema brasileiro.

Em 13 de julho de 2016, Babenco morreu aos 70 anos de idade, após parada cardíaca em São Paulo. Ao longo de sua trajetória, ele dirigiu “Lúcio Flavio, o passageiro da agonia” (1976), “Meu Amigo Hindu” (2015), entre outros; além de ter sido indicado ao Oscar de melhor diretor pelo filme “O beijo da Mulher-Aranha” (1985).

Antes da partida de Babenco, Bárbara Paz registrou conversas com ele e transformou esse material nos formatos textual e audiovisual. Bela homenagem.

Capa do livro publicado pela editora Nós (Foto: Reprodução)

LIVRO
Basicamente, “Mr. Babenco – Solilóquio a dois sem um” é um livro de memórias do cineasta feito a partir de conversas que ele e a atriz Bárbara Paz, sua mulher, tiveram no fim da vida até o último jantar do casal.

Provocado pelas perguntas de Bárbara, Babenco vai contando sobre sua infância na Argentina, a descoberta do primeiro câncer, os bastidores de seus filmes. É ela quem organiza o livro, pontuado por este diálogo íntimo sobre a vida e obra do cineasta. O livro traz também poemas inéditos escritos por Babenco na juventude – em espanhol e em português – e alguns registros fotográficos.

É uma estrutura narrativa com boa fluência, pois o leitor é conduzido pela coloquialidade das respostas do protagonista, que revela seu pensamento, ideias, motivações, bastidores dos filmes… é uma forma de conhecer melhor a genialidade do cineasta.

FILME
Premiado, “Babenco – alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou” esteve no páreo para concorrer ao Oscar de melhor filme internacional em 2021. Mas, para tristeza geral, ficou de fora da noite de premiações.

Independentemente disso, é um documentário de rara sensibilidade e beleza. A diretora uniu entrevistas com Babenco a cenas dos filmes desse cineasta. O resultado é ao mesmo tempo tocante, pulsante e emocionante. Paz deu forma visual ao desejo de seu marido: “Eu já vivi minha morte, agora só falta fazer um filme sobre ela”.

Nesta imersão amorosa na vida do cineasta, ele se desnuda, consciente, em situações íntimas e dolorosas. Revela medos e ansiedades, mas também memórias, reflexões e fabulações, num confronto entre vigor intelectual e fragilidade física que marcou sua vida.

Longa-metragem dos anos de 1980 é um clássico do cinema brasileiro (Foto: Reprodução)

CINEMATOGRAFIA
Para quem tem interesse em ver ou rever a obra de Hector Babenco, é possível encontrar seus filmes no catálogo de serviços de streaming.

O SPCine Play (www.spcineplay.com.br/), com acesso gratuito via plataforma Looke, tem as seguintes opções: “O Rei da Noite” (1975), “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”, “Pixote – A Lei do Mais Fraco” (1980), “O Beijo da Mulher Aranha” (1985), “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), “Coração Iluminado” (1998), “Carandiru” (2003) e “Meu Amigo Hindu” (2016).

Já “O Passado” (2007) pode ser alugado ou comprado online no Google Play; e “Ironweed” (1987) é uma raridade no mercado legalizado de home video no Brasil.

Por fim, “Babenco – alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou”, de Bárbara Paz, está disponível para compra e aluguel online em serviços como Looke, YouTube, Google Play etc. na modalidade paga.

***********Texto da resenha: Cris Nascimento, especial para CORREIO

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