Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que contratas

“No entanto, em um mundo altamente conectado e com novas exigências por parte dos consumidores e colaboradores, é preciso entender que os terceiros que te representam devem ser ‘cativados’ de acordo com suas regras também”

Quando Antoine de Saint-Exupéry escreveu a frase “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, na obra O Pequeno Príncipe, quis chamar a atenção para nosso envolvimento com terceiros – afinal, somos parcialmente responsáveis por eles também.

Casos de terceirização de serviços no Brasil são muito comuns. Isso não ocorre somente em função da legislação trabalhista, mas também do alto nível de especialização que esses profissionais passaram a ter com o aumento da demanda. O segmento de prestação de serviços gerais vem adquirindo cada vez mais envergadura, sendo a estratégia adotada por diversas organizações. Até aqui tudo bem, pois você não precisa ser empresário para já saber ou ter ouvido falar da complexidade da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

No entanto, em um mundo altamente conectado e com novas exigências por parte dos consumidores e colaboradores, é preciso entender que os terceiros que te representam devem ser “cativados” de acordo com suas regras também. No mundo corporativo, chamamos essa ferramenta de due diligence, ou diligência prévia. Significa que antes de estabelecer determinado relacionamento, a empresa tem por obrigação verificar o histórico da instituição para quem pretende terceirizar parte de seus serviços. Afinal, embora os trabalhadores sejam de outra organização, estarão lá diariamente a serviço e representando determinada marca, pouco importando para o cliente a segmentação de personalidade jurídica.

O triste e recente caso ocorrido no Carrefour nos mostrou o quanto este tema faz-se presente no dia a dia. O que pensaria Saint-Exupéry ao ouvir de uma empresa que ela não é responsável pelos seus terceiros? Um afronte ao piloto-escritor e aos mecanismos modernos de integridade corporativa. Ter e estender regras de conduta é um princípio básico para a formação e percepção de valor e de transparência de um negócio, princípio esse pelos quais as empresas devem ser cada vez mais cobradas.

Atualmente existem diversas ferramentas e mecanismos de busca capazes de um levantamento bastante detalhado acerca de informações jurídicas, reputacionais e de integridade de uma pessoa física ou jurídica. Além disso, cláusulas contratuais também são necessárias para estender esse conhecimento à outra parte. Um dos pilares de um sistema de conformidade efetivo é a gestão de terceiros, que se responsabiliza por levar informações e capacitar fornecedores acerca das normas de ética vigentes no negócio.

Porém, não basta diligenciar corretamente e deixar de lado a manutenção e o preparo desses colaboradores para situações de crise. Treinamentos recorrentes são necessários para reforçar o que por vezes, no dia a dia, esquece-se. Fortalecer uma cultura ética que seja extensiva a terceiros é desafiador em um país de tantos contrastes quanto o nosso.

A polêmica do caso em questão ressaltou a carência e o despreparo das pessoas e das instituições no Brasil em lidar com situações de crise, bem como a violência que muitas vezes impera entre os relacionamentos e acaba sendo a tentativa frustrada de solucionar impasses. O problema é que as consequências que essas condutas têm gerado para nós, enquanto sociedade, são extremamente graves e urgem por uma solução assertiva.

As relações que estabelecemos com outras pessoas são de nossa responsabilidade e por isso é importante mantê-las bem, alinhadas aos nossos propósitos e saudáveis. O senso coletivo ainda precisa ser trabalhado por aqui, pois o que se nota são resquícios de uma colônia individualista, carente de valores morais que nos orgulhem daquilo que mais nos faz brilhar: a diversidade.

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**********Letícia Sugai é sócia das empresas Veritaz Gestão de Riscos e Compliance e Gordion Consultoria. É presidente do Instituto Paranaense de Compliance (Ipacom) e criadora do Movimento “Integridade sempre vale a pena”

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